A moça da casa amarela
A casa amarela no bairro de má fama ficou cercada de
curiosos. Pra eles era só mais uma morte, das muitas que acontecem na
vizinhança. As pessoas sorriam, brincavam... Pareciam não se dar conta do
tamanho da monstruosidade que acabara de acontecer ali.
Dentro da casa de poucos móveis, a mulher estava caída de
bruços sobre o colchão que ficava sobre o piso frio. A camisola cor de rosa, meio
romântica; podia denotar um pouco o modo como a jovem menina, de 20 anos,
enxergava a vida. Enxergava, porque depois dos golpes de martelo que recebeu na
cabeça perdeu esse poder. E não perdeu só a visão. Perdeu também a vida. E de
uma forma brutal.
A jovem tinha um marido de vinte e poucos anos também. Mas
ele era meio estranho segundo os vizinhos sorridentes. Tinha hábitos
esquisitos, era ciumento e batia na garota. Mas ela agüentava sozinha, sem
amigos; já que a família não morava no mesmo Estado. Ela veio da Bahia de todos
os santos, pra morrer pelas mãos do homem, nada santo, que amava.
Quando a Polícia chegou não encontrou documentos. Não sabia
dizer quem era a menina vitimada pelo amor doentio. Convidaram os vizinhos de
porta. Eles não a reconheceram. Aliás, muitos deles, nunca a viram. E se viram,
não prestaram atenção! Até mesmo aqueles que diziam conhecer o casal, serem
conterrâneos que vieram buscar oportunidades aqui, não sabiam o nome dela. Mas
apesar das marcas da violência que a deformaram, reconheceram seu rosto.
Na porta da casa os vizinhos continuavam a aguardar as
próximas notícias. Todos fizeram a primeira visita à casa amarela. Não pra
tomar um café, nem pra falar da vida. Alguns ouviram gritos e pedidos de
socorro no meio da madrugada, mas esses sinais não devem ter sido suficientes
pra levantar da cama e chamar a polícia. Resultado: a rua amanheceu com o carro
do IML impedindo o trânsito e uma vida ceifada.
O marido que matou sem piedade, pegou a bicicleta e fugiu de
casa. Abandonou a mulher morta. Ligou pra um amigo pra contar. Disse que tinha
matado a esposa, sem demonstrar arrependimento. A desculpa: um tal de crack.
Mas não seria a primeira vez que o homem se mostrou
violento. Ele não deixava que ela saísse de casa, prendia a esposa a quem dizia
amar, pois temia ser traído e/ou abandonado. Bem que merecia! Nem mesmo os
poucos amigos podiam conversar com a garota, que ainda nem tinha começado a
vida.
Os vizinhos chegaram a cogitar que a mulher morta a
marteladas fosse uma amante. Isso porque não viam a vítima há semanas, mesmo
dividindo a rua estreita.
No fim das contas, você deve estar pensando, o que eu tenho
com isso? Como essa historia muda a minha vida? Não é a pretensão deste texto,
mudar a vida de ninguém, mas sim alertar para a falta de generosidade das
pessoas, pra falta de ação em benefício do outro, pra falta de interesse por
aquele que está tão perto de você.
Se um dos vizinhos tivesse se levantado e agido, talvez ela
não estivesse morta. Se alguém tivesse dito bom dia, perguntado da vida nem que
fosse por educação; talvez a moça tivesse coragem de se abrir e de repente,
mais motivada, ir embora. Se as pessoas se importassem mais com o próximo, não
sorririam ao falar sobre a moça desfigurada, nem tratariam com tanta
naturalidade uma morte brutal.
Não! A culpa, eu sei; não é dessas pessoas! Mas, é
importante que a gente reflita sobre a nossa postura diante do outro. Às vezes
uma atitude muda tudo. É certo que uma atitude simples pode transformar a vida
de alguém. A gente julga não ter tempo pra doar aos outros. Mas gosta quando as
outras pessoas doam seu tempo pra gente.
No fim das contas, a jovem de vinte anos que tinha a vida
inteira pela frente, se torna só mais um número. Entra para as altas estatísticas
de violência contra a mulher. Mulheres que sofrem caladas, reféns de um amor
que amedronta; que sufoca; que maltrata. E todo dia é assim! Pode estar
acontecendo aí na sua vizinhança. Na porta da sua casa. No seu trabalho. E você
pode sim, fazer alguma coisa. Denunciar, por exemplo. A escolha de viver com o
agressor é da vítima, mas você, pelo menos, fez sua parte como ser humano.
Amor de verdade não machuca. Não violenta. Não mata. Amor de
verdade não sufoca. Não maltrata. Não pressiona, nem martiriza. Amor é um
sentimento puro, libertador. É algo que te move a ser melhor, a querer o bem a
quem está do seu lado. Tirar a vida da pessoa que se ama e justificar ciúmes só
pode gerar uma conclusão: o criminoso nunca será capaz de amar de verdade. Nem
a si mesmo.
Amor que é amor deixa o outro ir. Apesar da dor, a
felicidade do outro é mais importante. E por mais que doa depois você supera. A
vida não acaba porque um amor terminou. Reflita sobre isso!
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