Estou seco

Eu estou seco. Estou ávido. Afoito, atônito, arredio. Estou à procura. Sem rumo, sem estradas, sem direção. Estou sem eira nem beira. Estou sem chão, sem pés, sem céu. Não vejo mais o brilho, não enxergo mais as estrelas, insisto que não existe o belo. Parei de enxergar as cores, esqueci que existem as arvores, os sons já não me atraem e tudo perdeu a importância. Continuo sem rumo. Continuo seco. Continuo pasmo. Continuo bárbaro. Inconstante. Conflitante. Desafiante. Continuo tentando. Esperando. Acertando. Errando. Tentando e tentando. Mas eu estou seco. Eu me perdi e não consigo me encontrar. E continuo seco, sem rumo, atônito, bárbaro, esperando, errando, mas tentando. Continuo seco porque me falta água. Falta-me alimento. FALTA-me você. Continuo seco, intrépido, bárbaro, sem pés, sem céu, sem chão, porque me faltam às luzes, me faltam os olhos, me faltam os pulmões e o coração. Falta-me você. Continuo seco, pois o meu caminho e o seu não mais se cruzaram. Porque a minha vida e a sua correram para mares diferentes. Continuo seco porque o seu corpo nunca mais encontrou o meu e desde então o sangue não mais correu em minhas veias, o coração não mais bateu em meu peito, a minha pele nunca mais sentiu calor ou frio. Continuo seco, ávido, arredio porque me afasto da vida e não a encontro em você, porque você se perdeu em alguma curva da estrada. E depois que você se perdeu eu não mais te encontrei e o meu rumo eu também perdi. Perdi o meu rumo porque perdi você. E foi porque perdi você que perdi também à vontade, a coragem. E por isso que continuo seco, esperando você chegar para me banhar.

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